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Partir as pontes...



E de repente vou entrando em modo anestesia. Começa com uma dor, uma dormência que formiga e pica. Me incomoda e luto contra ela, mais agora que já conheço o prognóstico.
A seguir uma inércia, uma apatia que me rouba a vontade de tentar. Lutei, e se não tive forças, é porque já é inevitável.
Nesta fase me apercebo do caminho que estou a seguir, vejo que ainda há chances de voltar atrás, e tenho duas escolhas: dou marcha trás e repito o ciclo que me levou até ali, ou simplesmente destruo a estrada, quebro as pontes e impossibilito meu caminho de volta.
Eu sou teimosa e emotiva, volto atrás, repito, bato na mesma tecla, em algum momento o enter vai funcionar. Insisto já nem por mim, mas porque sei que vou magoar quando desistir. O mundo não está preparado para nós, pessoas que esquecem.
Acreditam que o rancor, a raiva, o amor... qualquer sentimento, nem que seja o de culpa nos vai fazer ficar.
Um dia apenas já só oiço minha própria voz, já estou a gritar no vazio da indiferença alheia. E neste momento, sem pausas para reflexões, eu parto tudo. Quebro as pontes que me fariam voltar atrás. Já tenho ausência total de dor, de alegria, de sentimentos. A dormência progrediu e agora a analgesia é total. Nem para bem ou para mal...
Um dia assistindo as "Pontes de Madson" me revi, acredito que todas nós nos revemos ali. Sim, eu teria ficado no carro, não, eu não teria seguido caminho com o outro. Mas jamais teria continuado no vazio, na raca da ausência de sentimentos.
Eu preciso falar, ser ouvida e mais do que isso, não posso conviver com apenas o tom da minha voz. Talvez eu não seja tão auto em mim quanto penso.

Assino eu a Mãe que é mulher, é autista e que é passional como todo neurodivergente.
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